segunda-feira, 30 de junho de 2008

O Cheiro da Merda III

A chegada foi rápida, embora as características do trajeto a tenham tornado penosa. Uma hora. Parecia uma semana. Naquela ocasião, L. tocava suas mãos suadas e esfregava o rosto para se convencer que tudo se tratava da mais pura imaginação. Por ventura, um pesadelo: “é só um pesadelo e nada mais”. Inconscientemente, L. evocou um poema de Edgar Allan Poe: o corvo.

Desceu e afundou o pé na lama. O rio exalava odor de fezes. Não obstante, funcionários urinavam, quando necessário(?), no primeiro lugar disponível. Procurou algum funcionário responsável a quem pudesse reclamar a situação. O rio deveria ser limpo? Encontrou um senhor de quase cinqüenta anos. Sua obesidade já lhe dificultava caminhar. Oleoso, ele limpava o suor de seu rosto com uma toalha encardida.

“Posso falar com o senhor?”, perguntou educadamente L.

“Estou ocupado”

“É rápido. Quero saber qual é o meu trabalho aqui.”

O homem obeso aponta para um par de prateleiras dentro de uma caminhonete antiga.

“Tá vendo a prateleira? Pegue os coletores. Retire amostras da água e do solo”

“Quantas?”

“Isso, vc é quem sabe?”

“Eu? Sou apenas uma estagiária!”

“Ótimo. Bom para vc. Estou ocupado.”

L. olhou para a cara de bolacha engordurada e desistiu do trabalho de seus sonhos. Encontrava-se no lugar errado. Choramingou afundando-se na terra podre. Qual era a diferença? Durante horas passaram copiosamente ao seu lado. As mesmas piadas infames. Convites sujos. Repertório idêntico. Levantou-se. Peregrinou por ruas e ruas atrás de uma direção que perdeu durante o transcorrer do dia. Cada passo de L. emanava o cheiro da merda impregnado.

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