Muito cedo a vida foi difícil com A.C. . Fugida com menos de 5 anos de um país eslavo, veio com a família procurar calmaria em algum país ao sul do globo. A infância foi sórdida, dividida entre o trabalho como doméstica em casa de fazendeiros e o clima de embriaguez de seu lar. Sim, seu pai era alcoólatra. O resto é desnecessário contar.
Aos treze anos, A.C. resolveu que melhor seria se casar. Não havia pretendentes, já que a aparência cadavérica, a baixa estatura e o temperamento agressivo afastavam os rapazes. Agarrou a primeira oportunidade ao juntar-se a uma lésbica de muito mais idade. Quando esta morreu, A.C. não esperou o enterro. Caiu na estrada. Mudou de cidade algumas vezes até que um homem careca decidiu dar-lhe um emprego e companhia.
Engravidou. Teve cinco filhos. Tratava-os na coleira, como escravos. Mas, com T. era diferente. Como a menina era bonita! A velha a olhava com olhos de cobiça, calculando quando a garotinha de 6 anos começaria a ter corpo para casá-la. E o marido da velha? Insuportável. Exceto pessoas que lhe conferissem costumeiramente regalias, assim considerava todos.
Aguardou o crescimento da filha. Alimentava a menina melhor do que os outros filhos. Dava-lhe banhos longos, penteava os cabelos. Tentava transmitir uma educação que, ela própria, A.C. jamais tivera. Ensinava cautelosamente como T. deveria ser perseverante na tarefa de encontrar um marido que fosse abastado. Caso o amasse melhor, embora a prioridade fosse garantir a prosperidade financeira de toda família.
A.C. foi correta ao apostar seu futuro em T. . Com 18 anos, T. conheceu R., rapaz de aparência duvidosa, mas proprietário de vários negócios lucrativos. R. apaixonou-se e T. ao menos fingiu apaixonar-se. A instrução da mãe fora precisa, devia ser solícita com o futuro marido, fazer-lhe muito feliz.
No primeiro encontro, T. engravidou. A situação foi uma oportunidade, pois seu pai e seus irmãos haviam saído de casa recentemente. Quanto a R., não conseguia tirar T. de sua cabeça. Trabalhava e fazia visitas familiares sempre, embora com a cabeça noutro lugar. Pouco tardou a comunicar aos pais que se casaria. Os pais, precavidos, ao questionaram quem era tal moça, souberam filha de quem era. Souberam também, que seu filho era vítima de um golpe.
Era sábado e R. e T. foram jantar. R. falou sobre seu sentimento. Pediu T. em casamento. Ela aceitaria, disse, mas com uma condição:
“Qual?”
“Quero que minha mãe more com a gente”
R. aceitou. Teria aceitado muito mais.
Casaram-se em um cartório. Não desejavam desperdiçar dinheiro em festa, preferiam viajar. A velha foi. No hotel, escolhia suas refeições por preço, desde que fossem as mais caras. R. comprou uma bela casa. Contratou várias empregadas. Nenhuma ficava. Para alegrar a esposa, grávida, comprou um cão labrador. O filho nasceu. Logo vieram outros. Festas. Um dia, R. sofreu um acidente de carro que lhe tirou a mobilidade do braço direito. Ficou inábil para o trabalho. Movia-se com dificuldade e sentia dores fortes.
Nessa mesma época, incubiu-se A.C. de cuidar do genro. A princípio, tratou-o bem. Ele era a sua sobrevivência. O telefone tocou. O gerente da agência bancária de R. informava que sua conta seria fechada. Vários cheques foram devolvidos e o empréstimo não foi pago. A.C. surtou quando soube. Entrou no quarto e xingou R. de aleijado. R. não entendia a situação. Virou para o lado para não ser desagradável. Dias depois, A.C. sofreu um infarto. Contrariando as expectativas médicas, recuperou-se. Um motorista foi buscá-la no hospital. O trajeto não lhe era conhecido.

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