domingo, 15 de junho de 2008

Ritmo, Ritmo!

Faltam dez minutos. Faz calor. O sol queima a calçada lotada e, aos empurrões, sigo a multidão. Um mendigo está deslumbrado frente à vitrine de uma loja de roupas. Ajoelha-se e abre os braços: “Perdão! Perdão!” O gesto, constrangedor para os transeuntes e os comerciantes locais, cessa aos primeiros murros vindos dos seguranças. Rapidamente, o mendigo é arrastado a uma travessa e jogado perto do lixo.

Relógio: estou atrasado. Ritmo, ritmo! Começo a correr e viro na primeira rua que encontro. Carros e carros se emparedam no semáforo. Um mar de metal sem fim. Meu ônibus, como de costume, demorou o dobro do tempo estimado. Algumas colegiais me olham e sorriem. Se eu tivesse mais tempo, talvez parasse. Isso é indiferente agora.

Maturidade. Entro no prédio, passo meu crachá e sou liberado. No elevador, poucas pessoas me aguardam. Fecho meus olhos e vejo de perto toda minha vida. Afrouxo o nó da gravata que me enforca e respiro. Procuro notar o rosto das pessoas ao meu redor. Apenas faces sem expressão. Mortos.

O chefe do setor em que trabalho, porém, traz um semblante agradável ao me encaminhar ao departamento pessoal: “Não é nada pessoal, quero que vc saiba disso”. “Foda-se”, grito em silêncio. Entusiasmado com meu gesto recente arranco a gravata e me ponho a dançar e cantar para o estranhamento dos funcionários que ali estavam: “Foda-se! Foda-se !”.

Antes que a segurança fosse alertada, me despeço de todas as pessoas mais sem rosto que vi em minha vida. Aproveito e lhes conto a novidade: “Vocês estão mortos”. Na calçada em frente ao prédio, me deparo com um buraco aberto para reformas no encanamento. Pulo dentro e com minhas próprias mãos começo a cavar. Cavo o mais fundo possível. Fundo e fundo. Pessoas olham. Minhas mãos sangram cada milímetro de meu esforço. Jamais houvera sentido semelhante prazer em toda minha existência. Secundariamente, ouço uma voz: “Sou o encarregado da empresa em que ele trabalhava. Ele foi demitido hoje. Já chamei uma ambulância”.

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