sexta-feira, 20 de junho de 2008

O Negociador I

Quando P.M. se estabilizou no emprego de seus sonhos, ele já tinha 52 anos. Sua vida havia se passado entre casamentos com fins trágicos, filhas esquecidas e um apelo grotesco à mediocridade espiritual. O leitor atento, talvez pense que o narrador exagere, mas não se engane: P.M era um excremento humano, ou, como foi apelidado pelo delegado de seu bairro, um homem bosta.

Apesar de todo fracasso, P.M. era dotado de grande autoconfiança. Meses após sua retomada profissional, ele anunciaria embriagado na cozinha de sua casa para todos seus enteados: “Eu sou um negociador! Um Ne - Go - Ci - A - Dor! Vocês são incapazes de se mexer sem a minha presença”. Essa história começou em dezembro e durou seis meses.

Em dezembro, o negociador bebia para relaxar e comemorar. E todos os dias comemorava durante horas no bar mais próximo. Mais à noite, era geralmente encontrado na porta de sua casa desmaiado e com alguns ferimentos de origem desconhecida. A situação desagradável foi agravando-se com o passar dos meses. Os copos viraram garrafas e os ferimentos, não eram mais apenas físicos. P.M. carregava cinco pessoas para a degradação.

Isolado em mesas de bar, P.M notava o quanto ainda era desejado pelas mulheres. De novo sentia-se homem! Finalmente, aos 52 anos, com a calvície avançada, menos de um metro e setenta e cinco e pesando 112 quilos, percebia a vida correr em seu corpo. O olhar de conquistador experiente procurava mais vítimas, que não raro, passavam a rir por sua figura. Estava concluído: Havia muito a se viver.

Durante garrafas, P.M. arquitetou o plano de sua vida. Ele teria de ser detalhado. Livraria-se da corja. Diria adeus a todos que colocavam em risco sua glória. Um dia, feliz, levantou-se no bar localizado na avenida São João e berrou:” Eu vou me livrar da Corja! Eu vou!”.

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