segunda-feira, 30 de junho de 2008
O Cheiro da Merda III
Desceu e afundou o pé na lama. O rio exalava odor de fezes. Não obstante, funcionários urinavam, quando necessário(?), no primeiro lugar disponível. Procurou algum funcionário responsável a quem pudesse reclamar a situação. O rio deveria ser limpo? Encontrou um senhor de quase cinqüenta anos. Sua obesidade já lhe dificultava caminhar. Oleoso, ele limpava o suor de seu rosto com uma toalha encardida.
“Posso falar com o senhor?”, perguntou educadamente L.
“Estou ocupado”
“É rápido. Quero saber qual é o meu trabalho aqui.”
O homem obeso aponta para um par de prateleiras dentro de uma caminhonete antiga.
“Tá vendo a prateleira? Pegue os coletores. Retire amostras da água e do solo”
“Quantas?”
“Isso, vc é quem sabe?”
“Eu? Sou apenas uma estagiária!”
“Ótimo. Bom para vc. Estou ocupado.”
L. olhou para a cara de bolacha engordurada e desistiu do trabalho de seus sonhos. Encontrava-se no lugar errado. Choramingou afundando-se na terra podre. Qual era a diferença? Durante horas passaram copiosamente ao seu lado. As mesmas piadas infames. Convites sujos. Repertório idêntico. Levantou-se. Peregrinou por ruas e ruas atrás de uma direção que perdeu durante o transcorrer do dia. Cada passo de L. emanava o cheiro da merda impregnado.
sábado, 28 de junho de 2008
O Cheiro da Merda II
“Bom dia”, disse L.
“Vc está atrasada. A hora aqui de entrada já passou há 15 minutos. Vc sabe a que horas entra?”, disparou o supervisor.
“Sei sim, às 8 horas”
“Repita!”
“Como?”
“Repita: a que horas vc entra?” berrou.
“As oito”
Leitor, leitor. É possível imaginar o drama de L.? A estagiária passou de sonho à pesadelo em menos de 15 minutos e agora se encontrava desnorteada. “Apenas 15 minutos! Era o meu primeiro dia”. Controlou as lágrimas e entrou rapidamente. Caminhava pelo corredor em sentido ao banheiro. Lavaria o rosto.
“Seja rápida. Hoje vc fará serviço externo”
“Aonde? Ninguém me avisou disso...”
“Bem, se vc quiser, tem um jaleco no vestiário. Seja breve. Vc vai junto com uma equipe verificar como está a limpeza do rio Pinheiros. Nossa empresa é a responsável.”
O vestiário era escuro. Cheirava a urina e fezes. L entrou em um banheiro para urinar, mas não conseguiu. O vaso sanitário estava todo manchado com merda. O lixo há muito tempo não limpo transbordava e o piso tornara-se pegajoso” Ai que nojo”. Arrumou-se o mais rápido quanto possível e foi para o caminhão que a aguardava.
“Posso ir à frente?”, perguntou ao motorista.
“Não princesa. A equipe toda fica na caçamba”
L. deparou-se com um grande empecilho ao chegar na caçamba: não conseguia subir. Por outro lado, também não notava disposição de algum funcionário em ajuda-la e eram mais de 30 homens.
“Alguém poderia me ajudar?”
“Claro”, disse um senhor de poucos dentes.
“Só ajuda, se ela sentar no meu colo”, escutou sem saber a direção.
“Se eu pego essa aí é hospital. Pode anotar: hospital”
“Hahahahaa”, riram todos.
Contrariando as expectativas, otimistas (certamente) de L., o repertório de piadas grotescas não acabou brevemente. A chacota durou a viagem inteira, com momentos de intensidade e pornografia insustentáveis. Além disso, o balanço era incomodo e dava náuseas.
sexta-feira, 27 de junho de 2008
O Cheiro da Merda I
No dia da entrevista, escolheu sua melhor roupa, pois passaria a impressão do quanto desejava aquela vaga. Com menos de um metro e cinqüenta, procurou um sapato bem alto para poder aparecer aos olhos do entrevistador. A estratégia obteve sucesso. Em meio a uma dinâmica com 15 outras estudantes, L. foi a escolhida.
O leitor não pode imaginar a glória da pequena L.. Ao chegar em sua casa, foi saudada como uma futebolista campeã do mundo. Com direito a frases entusiásticas de sua mãe, N., uma senhora que passava seus dias trabalhando em uma loja de roupas usadas.
“Filhinha, meu anjinho, a mamãe está tão contente. Você conseguiu. Agora a vida vai te trazer tudo o que vc merece.Vc vai ver!”
“Ai mãe. Não foi fácil, mas eu me esforcei, viu? A senhora vai ver, logo vou trabalhar numa indústria de cosméticos. A senhora vai ver!”
Caso soubesse a surpresa futura que esperava sua filha, por certo N. não teria afirmado que L. teria tudo o que merecia. Quem sabe, teria dito que tudo sempre melhora, que a vida é assim ou qualquer outra frase do vocabulário comum de frases comuns. Porém a história foi outra.
Os dias passaram e o início de L. no estágio salvador era em uma segunda feira. Era domingo. Calmamente, escolheu L. um blaiser preto. Discreto, mas que tivesse classe. Pensava em se destacar desde início. Na verdade, já imaginava futuras promoções ou elogios que receberia:
“ Nossa empresa não funciona sem vc L.”, diria um.
“Vc nasceu para cargos maiores”, diria o outro.
“A L. alia inteligência, competência e beleza numa única funcionária!”, outra complementaria.
E assim seguiu uma vasta lista de (auto) elogios até a manhã de segunda. A trajetória ao trabalho demorou quase duas horas. A empresa ficava em uma cidade vizinha. Apesar da grande ansiedade, L. não se importou. Foram duas horas livres em que sonhou com todo o grande futuro que estaria se iniciando ali, naquele mesmo momento, dentro do ônibus:”É preciso esforço para superar as dificuldades iniciais”, pensou.
quinta-feira, 26 de junho de 2008
Sombras
"A vida mergulhada em ignorância é mais fácil", não cansa de repetir a si mesmo. Não há nada demais nessa observação, todos sabem. É o senso comum. Por outro lado, há séculos P.L. procura a solução para o barulho dos pensamentos que urgem em sua cabeça. As Idéias queimam. Em um instante visualisa o quanto de errado existe em sua vida e no que vê. Noutro minuto, lamenta que a lobotomia criada pela sociedade moderna não tenha funcionado consigo. Loucura, leitor? Não, infelizmente. Não há piedade para pensar.
Cortinas fechadas. Louça ao teto. Odor fétido no quarto alugado na região mais insalubre de toda insalubridade. Esta é a vida de P.L.. Chora. Com um pano cobre o último espelho, sua única testemuna, não sem antes se despedir de sua sombra, que não tarda, também há de lhe abandonar:
" Escurecerá. E com a noite todo rumor das idéias se calará".
Quem sabe, sobrará apenas o ruído noturno. Os gritos ébrios. Os gemidos de prazer. As sirenes de policia. Deita-se na cama P.L.. Toma alguns comprimidos para dormir. Será o suficiente? Fecha os olhos e não permite que nenhuma idéia surja. Dias sem dormir. Logo o sono vem. Tranquilidade ou ilusão?
quarta-feira, 25 de junho de 2008
Uma Velhinha de Família
Muito cedo a vida foi difícil com A.C. . Fugida com menos de 5 anos de um país eslavo, veio com a família procurar calmaria em algum país ao sul do globo. A infância foi sórdida, dividida entre o trabalho como doméstica em casa de fazendeiros e o clima de embriaguez de seu lar. Sim, seu pai era alcoólatra. O resto é desnecessário contar.
Aos treze anos, A.C. resolveu que melhor seria se casar. Não havia pretendentes, já que a aparência cadavérica, a baixa estatura e o temperamento agressivo afastavam os rapazes. Agarrou a primeira oportunidade ao juntar-se a uma lésbica de muito mais idade. Quando esta morreu, A.C. não esperou o enterro. Caiu na estrada. Mudou de cidade algumas vezes até que um homem careca decidiu dar-lhe um emprego e companhia.
Engravidou. Teve cinco filhos. Tratava-os na coleira, como escravos. Mas, com T. era diferente. Como a menina era bonita! A velha a olhava com olhos de cobiça, calculando quando a garotinha de 6 anos começaria a ter corpo para casá-la. E o marido da velha? Insuportável. Exceto pessoas que lhe conferissem costumeiramente regalias, assim considerava todos.
Aguardou o crescimento da filha. Alimentava a menina melhor do que os outros filhos. Dava-lhe banhos longos, penteava os cabelos. Tentava transmitir uma educação que, ela própria, A.C. jamais tivera. Ensinava cautelosamente como T. deveria ser perseverante na tarefa de encontrar um marido que fosse abastado. Caso o amasse melhor, embora a prioridade fosse garantir a prosperidade financeira de toda família.
A.C. foi correta ao apostar seu futuro em T. . Com 18 anos, T. conheceu R., rapaz de aparência duvidosa, mas proprietário de vários negócios lucrativos. R. apaixonou-se e T. ao menos fingiu apaixonar-se. A instrução da mãe fora precisa, devia ser solícita com o futuro marido, fazer-lhe muito feliz.
No primeiro encontro, T. engravidou. A situação foi uma oportunidade, pois seu pai e seus irmãos haviam saído de casa recentemente. Quanto a R., não conseguia tirar T. de sua cabeça. Trabalhava e fazia visitas familiares sempre, embora com a cabeça noutro lugar. Pouco tardou a comunicar aos pais que se casaria. Os pais, precavidos, ao questionaram quem era tal moça, souberam filha de quem era. Souberam também, que seu filho era vítima de um golpe.
Era sábado e R. e T. foram jantar. R. falou sobre seu sentimento. Pediu T. em casamento. Ela aceitaria, disse, mas com uma condição:
“Qual?”
“Quero que minha mãe more com a gente”
R. aceitou. Teria aceitado muito mais.
Casaram-se em um cartório. Não desejavam desperdiçar dinheiro em festa, preferiam viajar. A velha foi. No hotel, escolhia suas refeições por preço, desde que fossem as mais caras. R. comprou uma bela casa. Contratou várias empregadas. Nenhuma ficava. Para alegrar a esposa, grávida, comprou um cão labrador. O filho nasceu. Logo vieram outros. Festas. Um dia, R. sofreu um acidente de carro que lhe tirou a mobilidade do braço direito. Ficou inábil para o trabalho. Movia-se com dificuldade e sentia dores fortes.
Nessa mesma época, incubiu-se A.C. de cuidar do genro. A princípio, tratou-o bem. Ele era a sua sobrevivência. O telefone tocou. O gerente da agência bancária de R. informava que sua conta seria fechada. Vários cheques foram devolvidos e o empréstimo não foi pago. A.C. surtou quando soube. Entrou no quarto e xingou R. de aleijado. R. não entendia a situação. Virou para o lado para não ser desagradável. Dias depois, A.C. sofreu um infarto. Contrariando as expectativas médicas, recuperou-se. Um motorista foi buscá-la no hospital. O trajeto não lhe era conhecido.
terça-feira, 24 de junho de 2008
Life Is Killing Me
Fui ao proprietário reclamar. O problema não era dele. Escrevi a um jornal local algumas cartas. Após prolongada insistência, disse-me o editor para que dormisse no banheiro. A idéia, que já fora cogitada sem sucesso, havia até saído de minha memória. Sobremaneira, lhe agradeci a gentileza:
"Obrigado pela ajuda!"
" Vá a merda! Seu louco!"
Desligou. Permaneci ouvindo o som de ocupado no telefone. Deixei fora de uso para evitar que o improvável acontecesse: alguém ligasse. Caiu o dia. A noite se erguia em escuridão. Vida? Fumei e fumei. Abri uma garrafa de vodca barata. Limpei o primeiro copo que vi com a camiseta que usava. Um, dois, três. Silêncio. Levanto e ligo o som. Um sujeito de voz grave repete: "I Dont Wanna Be Me". Concordo plenamente. Bebo mais alguns copos que faço questão de não contar. Imagino que se um infeliz pode ser músico e esconder sua nulidade em notas musicais, deve haver espaço para que eu também me encubra.
Euforia na rua. Televisão. Carnaval. Bundas. Samba. Corpos suados. Me masturbo pensando na vadia pelada da tv. Gritos lá de fora me chamam à realidade. Realidade? Retiro todas as lâmpadas de minha casa. Abro a janela. Apanho o aparelho televisor e o deixo cair, como se fosse um simples pedaço de papel. Ouço mais gritos. Travo a fechadura da porta com a cadeira. Coloco a mesa sob a janela. Por certo, o sol não incomodará mais. Sento-me debaixo à mesa e fumo outro cigarro. O dia amanhece. Para mim tudo continua escuro.
segunda-feira, 23 de junho de 2008
O Açougue
Quinta-feira passada, uma garota que lê este blog me perguntou se o Estivador não considera o simples fato de existir a prova da ausência de sentido em nosso viver:
“Estive, vc não acha a existência humana um absurdo?”
“Depende... que sacolas são estas?”
“Sacolas... Eu estava no shopping...”
“E porque vc não perguntou ao vendedor sobre isso?”
“Ele não saberia responder!”
“E vc saberia entender?”
“Cavalo!”
“ Ei... vc sabe o que é o açougue?”
“ Não!”
“Olhe ao seu redor. Veja as pessoas desse shopping que vc foi, por exemplo.”
“Não entendi. Mas, para mim, sei que é importante para todo mundo ter boas roupas, ter dinheiro”
“Claro! Claro! Mas, vc parece um pedaço de alcatra exposta no açougue.”
“Cavalo!”
E lá se foi a Alcatra, enraivecida sem saber o motivo. Falando sério, cheguei a conclusão que vivemos num açougue gigante. Demorei 573 séculos para perceber isso! Ok, tudo bem. Se eu fosse um gênio, teria me matado. Como sou um estúpido, ironizo minha própria dor. No entanto, o leitor não pode ignorar a sensação inóspita de existir em um mundo repleto de carnes em exposição, todas expostas, nuas e cruas, com seus devidos preços. Carne, apenas carne sem conteúdo.
sábado, 21 de junho de 2008
O Negociador II
Após três semanas, o plano era tão próspero que P.M. nem precisava mais dormir ao relento porque todas as noites os policiais do distrito lhe guardavam uma cela em que tinha companhia e carinho. A única questão que P.M. objetava eram dores no corpo. Mas, o caminho estava traçado e seria livre.
Cansado da parcimônia de P.M, o delegado resolveu indagar porque ele não ia simplesmente embora da casa que tanta infelicidade lhe causava: “Pegue suas coisas e vá seguir o seu rumo. Pare de história!”
“Só saio com papel. Só com Papel!”, bradava o negociador.
E o esperado mais inesperado de sua existência aconteceu. Cansado, entre uma garrafa e outra, decidiu escutar um pouco de música em sua casa. Ligou o volume no máximo e incomodado com o silêncio familiar resolveu quebrar alguns utensílios da cozinha. No meio de seu trabalho a campainha toca. Campainha ou algo semelhante, pois a música estava alta e não permitia a distinção perfeita entre os sons. Um policial pediu para que P.M descesse a escada. Cansado de negociar, mas ávido por emoção, o negociador dispara: “Eu não vou sair daqui. Seu lixo. Sou eu que pago o seu salário. Eu sustento você!”
“O senhor desça, por favor”
“@##%&%¨&¨&¨&¨”
“Teremos de subir”, avisa o policial.
O negociador silencia. Porque o desgaste? Vira as costas e sobe as escadas na direção de seu quarto. Como se nada houvesse ocorrido, deita-se na cama. A esposa estava escondida no banheiro. Ascende um charuto e olha a fumaça no ar. Os policiais entram, arrancam o charuto de sua boca e o algemam. P.M. é arrastado pela escada e posto em uma viatura: “Me escutem! Sou eu que pago vocês!”. No dia seguinte, o negociador foi demitido.
sexta-feira, 20 de junho de 2008
O Negociador I
Apesar de todo fracasso, P.M. era dotado de grande autoconfiança. Meses após sua retomada profissional, ele anunciaria embriagado na cozinha de sua casa para todos seus enteados: “Eu sou um negociador! Um Ne - Go - Ci - A - Dor! Vocês são incapazes de se mexer sem a minha presença”. Essa história começou em dezembro e durou seis meses.
Em dezembro, o negociador bebia para relaxar e comemorar. E todos os dias comemorava durante horas no bar mais próximo. Mais à noite, era geralmente encontrado na porta de sua casa desmaiado e com alguns ferimentos de origem desconhecida. A situação desagradável foi agravando-se com o passar dos meses. Os copos viraram garrafas e os ferimentos, não eram mais apenas físicos. P.M. carregava cinco pessoas para a degradação.
Isolado em mesas de bar, P.M notava o quanto ainda era desejado pelas mulheres. De novo sentia-se homem! Finalmente, aos 52 anos, com a calvície avançada, menos de um metro e setenta e cinco e pesando 112 quilos, percebia a vida correr em seu corpo. O olhar de conquistador experiente procurava mais vítimas, que não raro, passavam a rir por sua figura. Estava concluído: Havia muito a se viver.
Durante garrafas, P.M. arquitetou o plano de sua vida. Ele teria de ser detalhado. Livraria-se da corja. Diria adeus a todos que colocavam em risco sua glória. Um dia, feliz, levantou-se no bar localizado na avenida São João e berrou:” Eu vou me livrar da Corja! Eu vou!”.
quinta-feira, 19 de junho de 2008
Frases de um Casamento Perfeito de 17 dias
Ela era uma explosão. Ele era um vendaval. O leitor, que por certo possui mais de dois neurônios, logo perceberá a possibilidade que um abrandaria o outro e o acordo comum seria o evidente caminho a seguir. Serei mais claro, a mulher do casal, M. e o Homem, H, possuíam as mesmas características, mas em intensidade contrária.
Se ao longo dos primeiros 7 dias, os elementos encaixavam-se tal qual uma equação matemática resolvida corretamente, no oitavo, sem qualquer motivo antecessor, farpas eram disparadas sem direção:
“ Vc é uma gananciosa!”
“ O que vc quer? Viver de ideologia? Quero que nossos filhos passem férias na Disney! Isso mesmo! Na Disney!”
“Disney?”, questionava H. indignado. “Vc quer que meus filhos sejam alienados?”
“Ok. Vamos levá-los ao Museu do Louvre. Assim vc pode explicar para uma criança pequena as técnicas de luzes de Monet. Fantástico!”
“Qual a graça nisso?”
“Patético!”
“Patético. Eu?”
“Vc quer viver de ideologia?”
Ideologia ou Ganância, o casal entrou o oitavo dia de convivência discutindo sobre os filhos ainda não existentes e viagens vindouras. Tudo era motivo:
“ To cansado. Desisto. Não quero ver um relacionamento perfeito transformar-se nisso.”, disse H.
“Concordo com vc! Além do que fui convidada para uma festa e o Senhor Ideologia jamais iria querer ir.”
“E porque vc não vai?”
“Eu vou mesmo! Cansei. Te digo isso: a panela explodiu!”
H abriu o roupeiro e coloca em sua mochila as poucas coisas que trouxera para o apartamento que ainda não morava. M. Chorava com o rosto pressionado contra o travesseiro. Silenciosamente H. saiu. Não houve batida de porta, nem um adeus provocativo. Não houve nada. A mesma paisagem do quarto de M., já habituada a presença de H., retornou ao passado. Liberdade ou Lágrimas?
quarta-feira, 18 de junho de 2008
Toc Toc Toc!
“Toc Toc Toc”
Esse barulho. Parece que já o escutei alguma vez. Hoje, a vida pareceu-me tão nova que questiono se estou em meu lugar. Sinto frio e noto o braço de uma mulher em minha cintura. Carrega uma aliança em seu dedo. No meu dedo, uma aliança igual. Balanço a cabeça e resolvo voltar a dormir. É possível sonhar que se está sonhando?
“Toc Toc Toc”
Esse barulho. Passou-se menos de cinco minutos. Cinco minutos apenas e o mesmo barulho voltou a incomodar. “Toc Toc Toc Toc Toc Toc “Toc Toc Toc”. Insuportável! Sonhando ou não, se esse barulho ou, seja lá o que for, ressoar de novo na porcaria de meus ouvidos, descobrirei o que é. E, esse braço envolto em minha cintura? Vejo de relance um corpo apegado ao meu, como que protegendo-me. Ao olhar para o rosto tenho uma boa surpresa, ela é bonita. Tem a pele clara, cabelos e olhos castanhos. “Oi amor”, diz ela.
Como não a conheço, nada digo. Beijo-a desejoso de saber o seu sabor. Em menos de um minuto, somos um só. Sorrindo, ela se levanta para tomar banho e diz que irá trabalhar. “Veja se o senhor não perderá a hora!”. Tão rápido quanto possível, adormeço. Ganho um beijo e escuto um adeus. Sozinho, me entrego à cama.
“Toc Toc Toc”
“Vou resolver isso agora. Eu matarei esse infeliz”
Abro a porta e tenho a sensação de olhar para o espelho. Vejo a mim mesmo? “O que vc quer?”, digo rispidamente. A estranha figura entra e segue em direção à cozinha. Lá, a mesma mulher que houvera saído, está abraçada a esta cópia. Minha cópia! “Desgraçado, canalha!”, esbravejo e não obtenho resposta.
Jogo-me em cima da cópia e o esbofeteio como se fosse essa a razão que procurei durante toda a minha vida. Meus golpes são em vão. Imóvel, minha vida passa à minha frente e nada faço. Procuro refletir, talvez seja alguma brincadeira de meu inconsciente. Contudo, não era. E eu, alguma vez fui? Vou ao velho sofá e me sento. Irrealidade.
terça-feira, 17 de junho de 2008
A Grandiosidade de T.
Falávamos do T., não? T. é um sujeito bigodudo que gostava de bolinar todas moças que trabalhavam na limpeza de sua casa. Decidiu, precocemente, que seria um comerciante de sucesso e ganharia muito dinheiro. Visando colocar em prática sua "empreitada", dirigiu-se ao banco e sacou todos rendimentos de sua mãe, dona R. Pois não é que a visão comercial de T. era aprimorada? Em seis meses transformou a garagem da sua casa no depósito de bebidas mais famoso do bairro em sua imaginação! A pequena garagem mal suportava tamanho fluxo de clientes! Sua mãe todo dia agradecia ao pequeno furto que sofrera na igreja em que conversava com a imagem gigantesca de um senhor na cruz: " ohhh, meu querido filho! o que seria de sua mãe se não fosse por você".
Tudo era fantástico e um dia T. foi trabalhar e sua loja estava como sempre estivera durante esses meses: Vazia. Mesmo assim, T. não cansava de imaginar o bando de gente que entrava e saía, entrava e saía. Pouco depois do almoço, a realidade o chamou com a sirene da polícia. Os policiais entraram e levaram T. Mercadorias roubadas? Estelionato? Ninguém sabe. Mas é de conhecimento de todos a figura de T. balançando uma mão em gesto de grandiosa despedida. Sua mãe diz que ele se considerava um homem de sorte e adorado por todos. Sua outra mão mantinha em segurança uma garrafa de aguardente.
segunda-feira, 16 de junho de 2008
A Nova Secretária
Difícil não foi convencer a bela C., ruivinha de 23 anos, menos do que a metade da idade de V., conhecida da cidade como foguinho, mas não em alusão à cor de seus cabelos, a participar de sua empreitada. Ao contrário, C. vinha de um lar conservador e considerou a oportunidade um bom negócio. Seu pai, por sinal, um religioso fervoroso, doava mais à igreja do que à própria família.
A princípio desfrutavam momentos de carícias intímas trancados no escritório de V. horas seguidas. Pelo correr das semanas, não tardou para que os funcionários do banco questionassem as reais atribuições de C. na instituição. Afinal, a ruivinha possuía benefícios que extrapolavam sua ausência plena de atribuições, como, por exemplo, o vestuário um tanto ousado, que tinha no repertório roupas curtas e decotadas, além de farta maquiagem e unhas coloridas. Dona G. uma secretária da diretoria há 9 anos afirmava sempre que questionada sobre o caráter da nova funcionária: “É uma p#t@ sem vergonha!”
Como a história ganhava ares de folhetim, o casal resolveu transferir o local de sua aventura para um motel próximo. Na quarta-feira, decidiu ser mais discreto do que fora até o momento, V. subornou o porteiro de um motel próximo para avisar-lhe sobre possíveis percalços. Comprou também na farmácia algum estimulante, pois seu desempenho, segundo C. já deixava a desejar: ”Tu é velho mesmo!”.
No dia seguinte de sua entrada no motel, contrariando o combinado, o casal ainda permanecia no quarto. Horas passaram-se e nenhum movimento. A recepção discou no quarto, mas não houve resposta. Quando anoiteceu, assustado com a quantidade de possibilidades negativas que o quadro lhe oferecia, o gerente do hotel chamou a polícia. A porta foi arrombada e V. estava na cama. Nu e imóvel. No canto direito do quarto, entre o criado mudo e o banheiro, C. encontrava-se em choque. Encolhida e nua, chorava convulsivamente: “Ele era velho, era velho...”.
domingo, 15 de junho de 2008
Ritmo, Ritmo!
Relógio: estou atrasado. Ritmo, ritmo! Começo a correr e viro na primeira rua que encontro. Carros e carros se emparedam no semáforo. Um mar de metal sem fim. Meu ônibus, como de costume, demorou o dobro do tempo estimado. Algumas colegiais me olham e sorriem. Se eu tivesse mais tempo, talvez parasse. Isso é indiferente agora.
Maturidade. Entro no prédio, passo meu crachá e sou liberado. No elevador, poucas pessoas me aguardam. Fecho meus olhos e vejo de perto toda minha vida. Afrouxo o nó da gravata que me enforca e respiro. Procuro notar o rosto das pessoas ao meu redor. Apenas faces sem expressão. Mortos.
O chefe do setor em que trabalho, porém, traz um semblante agradável ao me encaminhar ao departamento pessoal: “Não é nada pessoal, quero que vc saiba disso”. “Foda-se”, grito em silêncio. Entusiasmado com meu gesto recente arranco a gravata e me ponho a dançar e cantar para o estranhamento dos funcionários que ali estavam: “Foda-se! Foda-se !”.
Antes que a segurança fosse alertada, me despeço de todas as pessoas mais sem rosto que vi em minha vida. Aproveito e lhes conto a novidade: “Vocês estão mortos”. Na calçada em frente ao prédio, me deparo com um buraco aberto para reformas no encanamento. Pulo dentro e com minhas próprias mãos começo a cavar. Cavo o mais fundo possível. Fundo e fundo. Pessoas olham. Minhas mãos sangram cada milímetro de meu esforço. Jamais houvera sentido semelhante prazer em toda minha existência. Secundariamente, ouço uma voz: “Sou o encarregado da empresa em que ele trabalhava. Ele foi demitido hoje. Já chamei uma ambulância”.
sábado, 14 de junho de 2008
Quem é o Estivador?
Na minha infância recordo de minha avó comentando que essa rua já foi um lugar aonde pessoas refinadas passeavam. Todo velho fala isso. Como eu acredito em tudo e em todos (e sempre fui assim, ou exatamente o contrário?), não discutia. Mas, o fato é que numa esquina da Augusta há um bar que é freqüentado por todo tipo de gente. Desde hippies amantes de Doors até intelectuais conhecedores profundos de meia página de um livro de Kafka.
Repare. Temos uma rua e um bar. É uma noite de quinta feira e faz calor. Estou vestido com uma camiseta preta e uma calça jeans que já esteve em dias melhores. Tênis? O bar, aliás, está quase vazio e me sento na primeira cadeira que encontro na parte externa. Como sou um rapaz de posses, olho o bolso e reparo que duas cervejas são o meu plano de gastos.
Olho de um lado ao outro e tenho vontade de fugir. Eu teria feito não fosse a entusiasmada conversa de um casal hippie sentado ao meu lado. Vestidos com roupas desgastadas, chinelos e com cabelos compridos não posso afirmar que seu odor seja realmente agradável. Calculo que seria um incomodo caso estivesse sentado a menos de um metro. Não é o caso.
“Honneyy” - Assim chamava ele a namorada(?) - “Sabe, pra mim o Estivador descreve, sem medo, com a mente aberta e os olhos atentos á vida real, os sonhos surreais e as ilusões que vivemos e nos fazem respirar a poluição com prazer”.
Neste momento, fui incapaz de não imaginar: “Eeeiiiiiiiii!!! Eu!!!!Eu mesmo!!! Eu sou o Estivador! É isso que eu penso sim e tem muito mais!”
“Não acredito”- diria ele empolgado com nossa conversa imaginária - “Estivador! Vc me faz pensar que não estou alucinado!”
“Bem, vc está . Eu sinto o cheiro.”
“Cheiro de quê?”
“Cheiro de... Sabe porque estou aqui?”
“Annnhhh??
“Quer saber?”
“Do que vc está falando Estive?
“Vc sabe!!! Eu nasci pra isso!”
Levanto e vou embora. O semblante do casal, estupefato, embora eu definitivamente não os tenha visto, jamais me abandonará.
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