segunda-feira, 7 de julho de 2008

Partida

Esta não é uma história feliz. Tampouco, uma história de amizade. Porque escrevo sobre alguém que não foi, necessariamente, um amigo? Escrevo porque acompanhei a trajetória de M. até os seus 26 anos. O ano derradeiro (comentam) foi como todos os outros. Deveria ser diferente. Contudo, sempre imaginei em minha vida, apesar do clichê eminente, que os maiores sorrisos escondem grandes dores.


Era 2003. Eu estava no primeiro ano da faculdade de Comunicação Social. Uma época de sonhos, ansiedade pelo futuro. Morava em uma cidade litorânea ao sul. A festa das “portugas”, nome dado em referência às residentes do imóvel, era conhecida por reunir gente “descolada” dos cursos de comunicação. Muita bebida e promessas de felicidade sexual. Promessas.


Quando o conheci, M. bebia o famoso “suco Gamy”. Uma mistura de refresco em pó com vodka barata. Fomos apresentados por seu irmão, K., e conversamos sobre Eliott Smith. Músico fantástico.


“Cara! Vc tem de tomar isso!”



“O que é isso aí?”


“Suco Gamy! Vc pega a vodka e coloca direto o pó do suco. Aí está. Resolvido. Tudo pronto”


“Ahhh”


Se a primeira conversa não foi extraordinária, evite o leitor imaginar que o futuro tenha mudado drasticamente. De fato, pessoas diferentes com alguns amigos em comum não seriam amigos. Conhecidos. Fomos a shows e festas. Nos encontrávamos num que todos freqüentavam. Além disso, me lembro, M. tinha uma namorada simpática com quem eu gostava de conversar.



No ano seguinte comecei a namorar. M. terminou o seu namoro. Mudei-me para uma grande cidade do sudeste anos depois. A distância tornou-se maior e o contato desnecessário. É com surpresa que escuto a notícia de que M. atirou-se de sua sacada pela manhã de sábado. Será verdade? Ele havia acabado de chegar do mesmo bar ainda presente em minhas recordações. O motivo? Não há motivo. Apenas a partida.

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