Já era hora de W.F. morrer. Extenuado pelos eventos enfadonhos de seus dias, decidiu finalizar a patética sucessão de sua história. Não poderia ser simples porque tudo fora simples e banal. A possibilidade que o gesto lhe acarretaria, tal como a dor física e quiçá metafísica, não lhe fundia receio. O afagar dos segundos diários, doloridos como o contato com o fogo, sim, era o que lhe machucava.
Se havia veracidade – e havia – em sua resolução, a única idéia que lhe encantava seria a morte mais dolorida e humilhante possível. Dolorida e humilhante a ponto de expurgar o desamor do episódio mais ignóbil de toda humanidade: seu nascimento.
Pode ao leitor sugerir pretensão um indivíduo julgar sua existência como a mais desprendida de valores e sentimentos. É exagero. Todo suicida exarceba seus conflitos. O caso de W.F. era semelhante a tantos outros, não fosse a dedicação ao estudo de um método para morrer que se revelasse o mais dolorido possível.
Os livros explicavam casos de envenenamento, pulsos cortados, etc. Era insuficiente. Pensou em enterrar-se vivo. Porém, a ausência de público a insultá-lo foi o bastante para dissuadi-lo da campanha. Lembrou-se, também, de que alguma alma caridosa poderia vir a socorrê-lo e o vexame persistiria.
Às madrugadas, relacionava-se com prostitutas ensandecidas por narcóticos em regiões perigosas da cidade. Eram locais horríveis e W.F. as possuía diariamente. Por ironia, os exames não apontavam quaisquer doenças sexualmente transmissíveis.
Em seguida a uma de suas desventuras, desabafou com uma prostituta desmaiada. Ela fedia a álcool barato e seus pés eram sujos. Disse a ela que descobriria o segredo de uma final infeliz:
“Serei apedrejado. Tentarei fugir, é certo, mas serei impedido. O público me insultará como um cão raivoso”.
Arquitetou o plano e juntou fundos. Procurou assassinos nos becos distantes das periferias e favelas. Conheceu homens perversos que lhe negaram a caridade, mesmo com a promessa de receber uma boa soma em dinheiro:
“E se você mudar de idéia?”, diziam.
Por fim, topou com alguns garotos que escutaram seu pedido. Interessados em dinheiro e com poucos escrúpulos. Indiferentes ao crime que cometeriam. Especificou-lhes o serviço. Concordaram. Entretanto, haveria uma condição:
“Queremos filmar!”
W.S. não viu problema. Ao contrário, imaginava o número de cidadãos honestos pelo mundo que poderiam apreciar sua obra prima na pasmaria de seus sofás macios. Perfeito. O trabalho que se iniciara com seis jovens avolumara-se e trazia um acréscimo de outras quinze pessoas que moravam nas cercanias da vila.

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