segunda-feira, 14 de julho de 2008

Souvenirs D' infance

Nunca conseguei esquecer aquele par de olhos negros. O modo como me olhavam. Por outro lado, poderia esquecer olhos que sempre estavam à minha espreita? Felizes, sempre felizes com a minha presença. Eu gostava de encostar minha cabeça no colo de meu velho avô e falar coisas sem sentido de acordo com minha pouca idade. Seriam somente palavras do passado se não estivessem envolvidas no contexto de minha infância.

Acreditei em D-us durante toda minha vida. Nunca quis ser católico ou protestante. Considerava as duas opções muito “místicas”, dispersas com suas várias sub-divindades. Vi minha avó morrer aos doze anos. Eu e o velho. Câncer. Recordo, agora, um dos olhares mais vazios de minha vida: o olhar de meu avô quando o visitei após a morte de vovó.

Durante parte de minha adolescência morei com minha mãe. Não me adaptei. Fui rebelde. Perdido. Encontrei a calmaria na experiência de um velho. Uma curiosidade: sabem como me chamava? Palhaço. Eis uma grande verdade! Tive sempre um lado humorístico que agradou a poucos. Agradava menos aos que eram vítimas de meu sarcasmo.

Hoje, contudo, faço uma homenagem a meu querido velho. Desejo recordar, tudo ao mesmo tempo, a infinidade de bons momentos que tivemos. O carinho que recebi e a recordação que desperta lágrimas enquanto escrevo. Reparo que só contei a dor em todas as páginas de minhas narrativas. Falei da infelicidade e do sofrimento. Seres humanos torpes e deprovidos de valores. Esqueci de contar o quanto fui feliz.

Por volta do ano de 2000, mudei-me para outro estado. Acreditei, com todas as minhas forças, que conseguiria seguir meu caminho só. Independência. No entanto, onde ficou o compromisso com a amizade e o amor que recebi durante minha vida? Culpa.

Dois anos depois, desembarcava o velho no aeroporto próximo de casa. Doente e triste. Seco, da mesma maneira que me sinto agora. Quando o abracei, visualizei toda minha história. Anos em segundos e flashbacks dispersos. E eu fui feliz. No hospital em que morreu dias depois, implorei que fosse eu que encontrasse o final naquela cama. Já não me fazia diferença.

Retornei à casa antiga. Tudo estava lá, mas o vazio era evidente. Em seu quarto, toquei cada uma de suas roupas. Eram apenas roupas. As fotos, imagens. Na biblioteca, que o velho cultivava com tanto carinho seus três mil volumes, trouxe a memória os comentários que contantemente eram finalizados assim:

"Uma obra prima. Nada mais a acrescentar".

Quanto a mim, terminei a primeira parte de minha vida e me pergunto se há algo mais que valha.

Nenhum comentário:

Procure na Web

Pesquisa personalizada
Powered By Blogger