sábado, 12 de julho de 2008

Pânico!

Desconheço o início. Prefiro não recordar. Era noite. Uma sexta feira. Talvez o mês de março. Estava em meu quarto e ouvia música. A luz estava apagada e pelos vidros da janela passava uma tênue claridade. Não havia preocupação. Importa? Há tempos convivia com uma dor que jamais me desacompanhava. Subitamente fui tomado por ondas de calor e minha respiração tornou-se ofegante. O ar faltava-me. Eu estava frio e quente. Procurava inspirar o ar tão rápido que ainda hoje sinto sua voracidade. Assim era.

"Hoje, morrerei", passou por minha cabeça.

A princípio, calculei que houvera chegado o momento de minha partida. Perguntava-me se era isso: Afinal, o que eu fizera? O que deixei aqui para que um dia lembrem-se de minha existência. Não tive filhos e tampouco me casei. Minha vida era um vazio repleto de atuações. Ilusão?. Não leitor, eu não fugiria da verdade.

"Vou morrer!", o eco repetia-se.

O grande escritor ,Machado de Assis, ao se referir a uma de suas personagens, relata que “ela poderia fugir a todos. Mas não podia fugir a si mesma”. Este era o meu pesadelo. Lentamente, distanciei-me. Larguei o trabalho. A vida limitava-se ao caminhar entre a cozinha, banheiro e quarto. Quando necessário, eu ia até mercado que ficava a menos de 15 metros de meu apartamento. Isso, quando muito.

Não saía durante o dia. Nunca. A visão tornava-se difusa. A cabeça pendia ao chão. Em poucas tentativas, malogradas, caí na calçada. Os transeuntes passavam desapercebidos. Alguns, preocupados com meu estado, comentavam:

"O vício destrói o homem".

Que vício? Eu não conseguia mais ficar perto de ninguém. Os odores incomodavam e não raro, os sons se transformavam no início daquilo que eu chamaria despois de delírio. E o que era o delírio? O delírio era um mergulho dentro de mim mesmo, como nunca imaginado anteriormente. Um contato intímo com tudo aquilo que eu não era. Vazio? O vazio refletido no espelho. Em cada milímetro de minha carne. Habituados estamos a enxergar apenas a casca. Calado, vejo o mundo como um grande comércio, repleto de astutos vendedores. Naquele mesmo quarto, sento na cama e choro. Desespero.

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