sábado, 28 de junho de 2008

O Cheiro da Merda II

Logo ao descer do ônibus, L. reparou que alguém a aguardava na porta da indústria. Vestia um jaleco branco, aparentava ter entre 40 a 45 anos. Seria seu chefe?

“Bom dia”, disse L.

“Vc está atrasada. A hora aqui de entrada já passou há 15 minutos. Vc sabe a que horas entra?”, disparou o supervisor.

“Sei sim, às 8 horas”

“Repita!”

“Como?”

“Repita: a que horas vc entra?” berrou.

“As oito”

Leitor, leitor. É possível imaginar o drama de L.? A estagiária passou de sonho à pesadelo em menos de 15 minutos e agora se encontrava desnorteada. “Apenas 15 minutos! Era o meu primeiro dia”. Controlou as lágrimas e entrou rapidamente. Caminhava pelo corredor em sentido ao banheiro. Lavaria o rosto.

“Seja rápida. Hoje vc fará serviço externo”

“Aonde? Ninguém me avisou disso...”

“Bem, se vc quiser, tem um jaleco no vestiário. Seja breve. Vc vai junto com uma equipe verificar como está a limpeza do rio Pinheiros. Nossa empresa é a responsável.”

O vestiário era escuro. Cheirava a urina e fezes. L entrou em um banheiro para urinar, mas não conseguiu. O vaso sanitário estava todo manchado com merda. O lixo há muito tempo não limpo transbordava e o piso tornara-se pegajoso” Ai que nojo”. Arrumou-se o mais rápido quanto possível e foi para o caminhão que a aguardava.

“Posso ir à frente?”, perguntou ao motorista.

“Não princesa. A equipe toda fica na caçamba”

L. deparou-se com um grande empecilho ao chegar na caçamba: não conseguia subir. Por outro lado, também não notava disposição de algum funcionário em ajuda-la e eram mais de 30 homens.

“Alguém poderia me ajudar?”

“Claro”, disse um senhor de poucos dentes.

“Só ajuda, se ela sentar no meu colo”, escutou sem saber a direção.

“Se eu pego essa aí é hospital. Pode anotar: hospital”

“Hahahahaa”, riram todos.

Contrariando as expectativas, otimistas (certamente) de L., o repertório de piadas grotescas não acabou brevemente. A chacota durou a viagem inteira, com momentos de intensidade e pornografia insustentáveis. Além disso, o balanço era incomodo e dava náuseas.

sexta-feira, 27 de junho de 2008

O Cheiro da Merda I

L. sonhou com um estágio na área de seu curso na faculdade desde o primeiro semestre. Cursava química em uma universidade tradicional e já estava no terceiro ano. Foi com muita felicidade que participou de uma seleção para um estágio que pagava mal, mas ao menos lhe daria um pouco de experiência para concorrer à uma vaga de emprego no acirrado mercado profissional que tanto almejava.

No dia da entrevista, escolheu sua melhor roupa, pois passaria a impressão do quanto desejava aquela vaga. Com menos de um metro e cinqüenta, procurou um sapato bem alto para poder aparecer aos olhos do entrevistador. A estratégia obteve sucesso. Em meio a uma dinâmica com 15 outras estudantes, L. foi a escolhida.

O leitor não pode imaginar a glória da pequena L.. Ao chegar em sua casa, foi saudada como uma futebolista campeã do mundo. Com direito a frases entusiásticas de sua mãe, N., uma senhora que passava seus dias trabalhando em uma loja de roupas usadas.

“Filhinha, meu anjinho, a mamãe está tão contente. Você conseguiu. Agora a vida vai te trazer tudo o que vc merece.Vc vai ver!”

“Ai mãe. Não foi fácil, mas eu me esforcei, viu? A senhora vai ver, logo vou trabalhar numa indústria de cosméticos. A senhora vai ver!”

Caso soubesse a surpresa futura que esperava sua filha, por certo N. não teria afirmado que L. teria tudo o que merecia. Quem sabe, teria dito que tudo sempre melhora, que a vida é assim ou qualquer outra frase do vocabulário comum de frases comuns. Porém a história foi outra.

Os dias passaram e o início de L. no estágio salvador era em uma segunda feira. Era domingo. Calmamente, escolheu L. um blaiser preto. Discreto, mas que tivesse classe. Pensava em se destacar desde início. Na verdade, já imaginava futuras promoções ou elogios que receberia:

“ Nossa empresa não funciona sem vc L.”, diria um.

“Vc nasceu para cargos maiores”, diria o outro.

“A L. alia inteligência, competência e beleza numa única funcionária!”, outra complementaria.

E assim seguiu uma vasta lista de (auto) elogios até a manhã de segunda. A trajetória ao trabalho demorou quase duas horas. A empresa ficava em uma cidade vizinha. Apesar da grande ansiedade, L. não se importou. Foram duas horas livres em que sonhou com todo o grande futuro que estaria se iniciando ali, naquele mesmo momento, dentro do ônibus:”É preciso esforço para superar as dificuldades iniciais”, pensou.

quinta-feira, 26 de junho de 2008

Sombras

Poucas são as coisas que aprazem P.L.. De forma recorrente recorda que já foi mais feliz. Não obstante, sentiu-se um dia mais humano. Hoje, o sol lhe queima a pele como o castigo de uma chibatada. Soa como se fosse uma penalidade devido à alguma falta que desconhece. Em verdade, tampouco quer conhecer. Alguém tem interesse em saber a culpa que carrega?

"A vida mergulhada em ignorância é mais fácil", não cansa de repetir a si mesmo. Não há nada demais nessa observação, todos sabem. É o senso comum. Por outro lado, há séculos P.L. procura a solução para o barulho dos pensamentos que urgem em sua cabeça. As Idéias queimam. Em um instante visualisa o quanto de errado existe em sua vida e no que vê. Noutro minuto, lamenta que a lobotomia criada pela sociedade moderna não tenha funcionado consigo. Loucura, leitor? Não, infelizmente. Não há piedade para pensar.

Cortinas fechadas. Louça ao teto. Odor fétido no quarto alugado na região mais insalubre de toda insalubridade. Esta é a vida de P.L.. Chora. Com um pano cobre o último espelho, sua única testemuna, não sem antes se despedir de sua sombra, que não tarda, também há de lhe abandonar:

" Escurecerá. E com a noite todo rumor das idéias se calará".

Quem sabe, sobrará apenas o ruído noturno. Os gritos ébrios. Os gemidos de prazer. As sirenes de policia. Deita-se na cama P.L.. Toma alguns comprimidos para dormir. Será o suficiente? Fecha os olhos e não permite que nenhuma idéia surja. Dias sem dormir. Logo o sono vem. Tranquilidade ou ilusão?

quarta-feira, 25 de junho de 2008

Uma Velhinha de Família

Muito cedo a vida foi difícil com A.C. . Fugida com menos de 5 anos de um país eslavo, veio com a família procurar calmaria em algum país ao sul do globo. A infância foi sórdida, dividida entre o trabalho como doméstica em casa de fazendeiros e o clima de embriaguez de seu lar. Sim, seu pai era alcoólatra. O resto é desnecessário contar.

Aos treze anos, A.C. resolveu que melhor seria se casar. Não havia pretendentes, já que a aparência cadavérica, a baixa estatura e o temperamento agressivo afastavam os rapazes. Agarrou a primeira oportunidade ao juntar-se a uma lésbica de muito mais idade. Quando esta morreu, A.C. não esperou o enterro. Caiu na estrada. Mudou de cidade algumas vezes até que um homem careca decidiu dar-lhe um emprego e companhia.

Engravidou. Teve cinco filhos. Tratava-os na coleira, como escravos. Mas, com T. era diferente. Como a menina era bonita! A velha a olhava com olhos de cobiça, calculando quando a garotinha de 6 anos começaria a ter corpo para casá-la. E o marido da velha? Insuportável. Exceto pessoas que lhe conferissem costumeiramente regalias, assim considerava todos.

Aguardou o crescimento da filha. Alimentava a menina melhor do que os outros filhos. Dava-lhe banhos longos, penteava os cabelos. Tentava transmitir uma educação que, ela própria, A.C. jamais tivera. Ensinava cautelosamente como T. deveria ser perseverante na tarefa de encontrar um marido que fosse abastado. Caso o amasse melhor, embora a prioridade fosse garantir a prosperidade financeira de toda família.

A.C. foi correta ao apostar seu futuro em T. . Com 18 anos, T. conheceu R., rapaz de aparência duvidosa, mas proprietário de vários negócios lucrativos. R. apaixonou-se e T. ao menos fingiu apaixonar-se. A instrução da mãe fora precisa, devia ser solícita com o futuro marido, fazer-lhe muito feliz.

No primeiro encontro, T. engravidou. A situação foi uma oportunidade, pois seu pai e seus irmãos haviam saído de casa recentemente. Quanto a R., não conseguia tirar T. de sua cabeça. Trabalhava e fazia visitas familiares sempre, embora com a cabeça noutro lugar. Pouco tardou a comunicar aos pais que se casaria. Os pais, precavidos, ao questionaram quem era tal moça, souberam filha de quem era. Souberam também, que seu filho era vítima de um golpe.

Era sábado e R. e T. foram jantar. R. falou sobre seu sentimento. Pediu T. em casamento. Ela aceitaria, disse, mas com uma condição:

“Qual?”

“Quero que minha mãe more com a gente”

R. aceitou. Teria aceitado muito mais.

Casaram-se em um cartório. Não desejavam desperdiçar dinheiro em festa, preferiam viajar. A velha foi. No hotel, escolhia suas refeições por preço, desde que fossem as mais caras. R. comprou uma bela casa. Contratou várias empregadas. Nenhuma ficava. Para alegrar a esposa, grávida, comprou um cão labrador. O filho nasceu. Logo vieram outros. Festas. Um dia, R. sofreu um acidente de carro que lhe tirou a mobilidade do braço direito. Ficou inábil para o trabalho. Movia-se com dificuldade e sentia dores fortes.

Nessa mesma época, incubiu-se A.C. de cuidar do genro. A princípio, tratou-o bem. Ele era a sua sobrevivência. O telefone tocou. O gerente da agência bancária de R. informava que sua conta seria fechada. Vários cheques foram devolvidos e o empréstimo não foi pago. A.C. surtou quando soube. Entrou no quarto e xingou R. de aleijado. R. não entendia a situação. Virou para o lado para não ser desagradável. Dias depois, A.C. sofreu um infarto. Contrariando as expectativas médicas, recuperou-se. Um motorista foi buscá-la no hospital. O trajeto não lhe era conhecido.

“Estamos a caminho de casa?”, perguntou.

“Não, estamos longe. A senhora ficará em uma casa de repouso há 500 quilômetros daqui”.

terça-feira, 24 de junho de 2008

Life Is Killing Me

Quebraram o muro de frente à minha janela. Não seria importante. No entanto, o sol e o calor teimam inundar o cubículo em que moro. Me sufocam. Pensei em colocar cortina, mas a simulação da realidade que representa o utensílio me levou à negativa. Afinal, uma cortina sempre esconde e dissimula. Quanto a mim, prefiro ver. Mesmo que não veja nada.

Fui ao proprietário reclamar. O problema não era dele. Escrevi a um jornal local algumas cartas. Após prolongada insistência, disse-me o editor para que dormisse no banheiro. A idéia, que já fora cogitada sem sucesso, havia até saído de minha memória. Sobremaneira, lhe agradeci a gentileza:

"Obrigado pela ajuda!"

" Vá a merda! Seu louco!"

Desligou. Permaneci ouvindo o som de ocupado no telefone. Deixei fora de uso para evitar que o improvável acontecesse: alguém ligasse. Caiu o dia. A noite se erguia em escuridão. Vida? Fumei e fumei. Abri uma garrafa de vodca barata. Limpei o primeiro copo que vi com a camiseta que usava. Um, dois, três. Silêncio. Levanto e ligo o som. Um sujeito de voz grave repete: "I Dont Wanna Be Me". Concordo plenamente. Bebo mais alguns copos que faço questão de não contar. Imagino que se um infeliz pode ser músico e esconder sua nulidade em notas musicais, deve haver espaço para que eu também me encubra.

Euforia na rua. Televisão. Carnaval. Bundas. Samba. Corpos suados. Me masturbo pensando na vadia pelada da tv. Gritos lá de fora me chamam à realidade. Realidade? Retiro todas as lâmpadas de minha casa. Abro a janela. Apanho o aparelho televisor e o deixo cair, como se fosse um simples pedaço de papel. Ouço mais gritos. Travo a fechadura da porta com a cadeira. Coloco a mesa sob a janela. Por certo, o sol não incomodará mais. Sento-me debaixo à mesa e fumo outro cigarro. O dia amanhece. Para mim tudo continua escuro.

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